Izabele Zasso

Izabele Zasso

Diante de tantas questões acerca da autorização em se pôr a falar e escrever sobre a transmissão em psicanálise, nos deparamos com os percalços de sustentar os nossos desejos e de uma prática que pressupõe um sujeito de desejo. Mas afinal, o que isso quer dizer? O que seria um sujeito de desejo ou o desejo em si? 

Numa tentativa de explicação, possivelmente falível, uma vez que, falar do próprio desejo é, no mínimo, complexo, exporemos uma metáfora acerca daquilo que concerne um dos caminhos do desejo que nos pulsa, já que ele é sempre inapreensível. Uma de nós (somos 3 a escrever), estava percorrendo o trajeto de sua casa até seu consultório, divagando justamente sobre os caminhos que fizera e as razões pelas quais escolheu, como lugar, a cidade de Cascavel/PR.
Ao narrar sobre seu percurso, outros questionamentos lhe vieram à mente: O que é um percurso? O que mais importa; o caminho ou o seu fim? O fim ou sua finalidade?
Esses questionamentos realçam a importância de falarmos e de nos implicarmos nos caminhos que escolhemos. Poder falar sobre nossas conquistas e desgraças, sobre aquele mal-estar que nos acomete toda vez que nos propormos a realizar algo ou até mesmo de fazer brotar disposição apesar de um dia intenso de afazeres. Nos dispormos a falar sobre o querer e o não querer para, posteriormente, permitirmo-nos reconhecer o que realmente desejamos. Assim, torna-se possível advir um sujeito para que esse possa, aos poucos, aceitar suas impossibilidades e que essas não sejam vistas como incapacidades, pelo contrário, é o não-poder tudo que nos permite poder algo.

Não por acaso, desejo não equivale à vontade, ele pode ser comparado a uma sala de espera, pois precisamos nos propor a estar lá (no entre) para que as possibilidades se revelem. Todavia, mesmo após realizada uma das escolhas, não haverá garantias de satisfação e plenitude ou, sequer, de respostas, o que haverá são outras novas (talvez nem tão novas assim) possibilidades, ou seja, o percurso desejante não é o fim, mas a via de acesso a uma cadeia espiral e dinâmica de desejo. Em vista disso, ou seja, por uma questão de desejo, escolhemos por reconstruir nossos espaços de escuta, na mesma cidade, por razões singulares, mas convergentes, em alguns pontos.
Em virtude do desejo de se pôr a falar, através da escrita, sobre os caminhos que optamos, a pergunta sobre seu começo circula, sem ponto de partida ou ponto de chegada, tal como o percurso desejante do sujeito. Já diria Galeano (2015): “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Para que eu não deixe de caminhar”.
Cada uma, atravessada pelas suas histórias, seus sintomas, suas angústias, seus (des) encontros e com suas próprias questões deparam-se com esse estranhamento, tão familiar, que é se fazer desejante, cuja tarefa é tão peculiar.
Afinal, o que nos une, o acaso ou o desejo? Por que a psicanálise? Por que Cascavel?

Cheila Rotta Scheibel - Crp 08/16663
Izabele Zasso - Crp 08/24980
Juliane Ozelame Ribas Mohana - Crp 08/15864

REFERÊNCIAS:

GALEANO, Eduardo. Para que serve a utopia. Blog Conti Outra. Disponível em:< http://www. contioutra.com/para-que-serve-utopia-eduardo-galeano>. Acesso, v. 28, 2015.

Izabele Zasso 08/24980

Desde o surgimento do primeiro telefone até as mais avançadas tecnologias de comunicação ocorreram rearranjos das relações sociais até então conhecidas. Tais tecnologias possibilitam a interação entre os indivíduos, mesmo em continentes diferentes. A imagem da televisão, bem como a transmissão via internet, não conhecem a temporalidade (online e off-line), ultrapassam o tempo e, além disso, coexistem em vários lugares (LEVY,1996). Mais impressionante ainda, o surgimento das tecnologias 3D, que possibilitam adentrar com maior realidade no universo virtual. A influência da virtualidade na vida cotidiana é significativamente vívida e vem permeando cada vez mais as relações sociais que antes eram, na maioria das ocasiões, praticadas no âmbito presencial.
Um exemplo da modificação das formas de se relacionar, é o aplicativo Tinder. Ele é quase um radar perfeito, pois o usuário escolhe o gênero, a idade (acima de 18 anos) de interesse dos possíveis pretendentes que estejam a uma distância de até 160 quilômetros. Depois, avalia a sugestão dada pelo aplicativo e, com uma rápida análise das fotos e das poucas informações disponíveis, decide se gosta ou se não gosta da opção (pessoa). Além disso, o Tinder acaba também com a rejeição, pois somente usuários que gostaram um do outro que são permitidos manter contato entre si.
O uso crescente de redes sociais é uma marca característica da sociedade pós-moderna, que se caracteriza pela fluidez, instantaneidade e da necessidade do indivíduo de estar sempre conectado e em movimento. Os relacionamentos contemporâneos podem ser comparáveis a investimentos de mercado capitalista. Os que procuraram por amor, no Tinder, por exemplo, podem estar se colocando na vitrine ao mesmo tempo em que analisam os que estão na prateleira. A mesma lógica do mercado consumista de hoje. Segundo Bauman (2004) nos sentimos mais confortáveis em nos relacionarmos através da mediação desses dispositivos virtuais. Os meios digitais trazem três aspectos que o contato físico não pode garantir totalmente: segurança, controle e comodidade (BAUMAN, 2004). O contato face-a-face, ao ser comparado com o contato online por plataformas digitais, se torna algo completamente perigoso e imprevisível. Não podemos ter alguns segundos a mais antes de enviar uma resposta, assim como não podemos reler o que respondemos antes de enviar. O contato físico não permite erros.
Outra característica da sociedade pós-moderna é o individualismo. Isso se reproduz nas relações amorosas que são autocentradas e desinvestidas. Ainda, há um superinvestimento na aparência, no ter em detrimento do ser. Por isso, o aplicativo Tinder tem tantos adeptos, pois se baseia na aparência. No ter. Sou visto, logo existo. Mas é mais que isso, é uma necessidade de ser reconhecido pelo outro.
E, no fim, o que captura uma pessoa a outra pessoa, seja ela pelo computador ou não, são as fantasias que se colocam em cena. Fantasias são uma armadilha do olhar do sujeito, que se deixa fascinar, enganar, pois a considera como sua janela para o mundo, pois não se trata de uma realidade fatual, mas psíquica.
Por fim, não se trata de uma crítica a virtualidade ou de um apelo aos tempos “antigos”, mas sim, de novas configurações de laço.

REFERÊNCIAS:
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

LEVY, Pierre. O que é o virtual? Tradução: Paulo Neves. São Paulo: editora 34, 1996.

Izabele Zasso - CRP 08/24980

O mês de abril é reservado a mentira. Um dia específico em comemoração a esta data, dia 01 de abril. A intenção de ter um dia específico para esse ato se deu porque a mentira, nos tempos medievais era condenada socialmente. A mentira era punida e a verdade premiada.
Ao abordar sobre um tema pouco abordado, porém, necessário, partir-se-á de um recorte cultural, o cinema, para exemplificar o papel que a mentira ocupa em nossa sociedade de modo geral. São dois filmes que dão conta de problematizar as diferentes facetas da mentira.
O primeiro deles é o Pinocchio. Todo mundo conhece a história de Pinocchio, e de como seu nariz crescia a cada mentira ou inverdade que contava. Pinocchio é uma criança que não é “de verdade”, mas é um boneco com vida. Primeiro ponto que se deve pensar a respeito do filme: Porque as crianças mentem? E porque sua mentira precisa ser exposta (através do nariz)?
Mentira pode ser entendida, de acordo com a psicanálise, como mecanismo de defesa do ego. E, pode ser pensada como a forma que a criança constrói uma proteção na disputa contra o adulto, todo-poderoso, imponente, que o pequeno mentiroso vislumbre como arquétipo, mas que devido à sua fragilidade e às suas limitações, julgue jamais poder igualar-se. Nesse sentido, se vê inferiorizado e, através da mentira, pode tornar-se autônomo diante do adulto. Corso defende que “contar pequenas lorotas e ludibriar os adultos é um ato de independência, de perceber a limitação desses em controlá-lo” (CORSO & CORSO, 2006, p. 221).
Ainda, podemos pensar que os adultos também mentem para as crianças e apresentam a mentira na vida delas. Por exemplo, mentimos sobre sua origem através do exemplo da cegonha, e além da cegonha, nós lhe ofertamos o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, a fada do dente, os anjos e outras personagens, como a bruxa e o bicho papão. Isso tudo lhe preenche o imaginário – por algum tempo, porque depois nós confessamos a farsa. Tempo suficiente, porém, para ela inventar um mundo paralelo que lhe traga as devidas explicações sobre sua origem e sobre tudo mais que, ainda, não pode entender. Assim, a criança vai criando narrativas para contar sua história, ao mesmo tempo, vai comprovando ou não suas teorias.
A mentira também tem sua função pedagógica. Afinal, o mundo do faz-de-conta que concedemos à criança proporciona uma importante efervescência à sua imaginação, introduzindo o período de compreensão do abstrato. A cegonha facilita o processo cognitivo, porquanto lhe empresta uma identidade – ainda que provisória.
Outro filme elucidativo sobre a mentira é Peixe Grande e suas histórias maravilhosas. O personagem principal, próximo de ser pai pela primeira vez, recebe uma ligação que o informa de que seu pai está morrendo. Ele possui uma mágoa de seu pai, pois acredita que este conta apenas “lorotas” no relato de suas aventuras pela vida, bem como sobre a origem de seu único filho (CORSO & CORSO, 2011). Suas “mentiras” fazem refletir, afinal Mario Quintana afirma: “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer” ou seja, ela é inverdade quanto ao fato, mas é verdadeira quanto ao desejo que venha expressar.

REFERÊNCIAS

CORSO, Diana L. CORSO, Mário. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Penso, 2006.

CORSO, Diana L. CORSO, Mário. A psicanálise da terra do nunca: ensaios sobre a fantasia. Porto Alegre: Penso, 2011.

A comemoração dos 21 anos da Apoio Clínica Integrada e Gestão de Recursos Humanos
Izabele Zasso

A Apoio Clínica Integrada e Gestão de Recursos Humanos está, neste ano de 2017, completando 21 anos de história. Esta história iniciou-se pelo desejo e empenho comum de um grupo de pessoas: o de construir uma clínica multidisciplinar em saúde que promovesse o bem estar de indivíduos e organizações.
Ao longo desses 21 anos de fundação, algumas coisas foram se remodelando para se adaptar às novas exigências pessoais e de mercado. Entretanto, a faísca que fez com que a Clínica fosse construída se manteve acesa, mesmo que após alguns percalços. O espírito inovador e empreendedor aproximou pessoas com objetivos similares e fez com a Apoio Clínica Integrada se tornasse referência na região Oeste do estado do Paraná, no atendimento a indivíduos e organizações. Por estas e outras razões, motivos para celebrar não nos faltaram. E em comemoração aos nossos 21 anos de atuação, no dia 11 de maio de 2017, foi realizado uma mesa redonda com profissionais de diversas áreas de atuação, com a temática: multidisciplinariedade e a complexidade do indivíduo, na unidade de Toledo. Dia 19 de maio de 2017 ocorreu um coquetel de lançamento do livro Laudo Psicológico e, no dia 20 de maio, finalizou-se as comemorações com o curso sobre laudos psicológicos, que foi ministrado pela psicóloga Cássia Regina de Souza Preto.
O ano de 2017 está sendo paradigmático para a Apoio Clínica Integrada e Gestão de Recursos Humanos pois, após o sucesso dos eventos em prol da comemoração dos 21 anos de origem, emergiu uma vontade, ainda maior, de concretizar as coisas pelas quais acreditamos. Um dos objetivos imediatos é continuar promovendo cursos, palestras, eventos que possibilitem a expansão da experiência (subjetiva e objetiva) dos profissionais vinculados a área da saúde. Essas propostas se pautam em nosso compromisso ético, enquanto instituição, no fortalecimento de pessoas, indivíduos e organizações, pois acreditamos que a criação de espaços como estes, são uma possível via de crescimento profissional, onde a prática da enunciação e da escuta podem ser fiéis aliadas nesta nova caminhada.

Izabele Zasso - CRP:08/24980