CHEILA ROTTA S

CHEILA ROTTA S

Diante de tantas questões acerca da autorização em se pôr a falar e escrever sobre a transmissão em psicanálise, nos deparamos com os percalços de sustentar os nossos desejos e de uma prática que pressupõe um sujeito de desejo. Mas afinal, o que isso quer dizer? O que seria um sujeito de desejo ou o desejo em si? 

Numa tentativa de explicação, possivelmente falível, uma vez que, falar do próprio desejo é, no mínimo, complexo, exporemos uma metáfora acerca daquilo que concerne um dos caminhos do desejo que nos pulsa, já que ele é sempre inapreensível. Uma de nós (somos 3 a escrever), estava percorrendo o trajeto de sua casa até seu consultório, divagando justamente sobre os caminhos que fizera e as razões pelas quais escolheu, como lugar, a cidade de Cascavel/PR.
Ao narrar sobre seu percurso, outros questionamentos lhe vieram à mente: O que é um percurso? O que mais importa; o caminho ou o seu fim? O fim ou sua finalidade?
Esses questionamentos realçam a importância de falarmos e de nos implicarmos nos caminhos que escolhemos. Poder falar sobre nossas conquistas e desgraças, sobre aquele mal-estar que nos acomete toda vez que nos propormos a realizar algo ou até mesmo de fazer brotar disposição apesar de um dia intenso de afazeres. Nos dispormos a falar sobre o querer e o não querer para, posteriormente, permitirmo-nos reconhecer o que realmente desejamos. Assim, torna-se possível advir um sujeito para que esse possa, aos poucos, aceitar suas impossibilidades e que essas não sejam vistas como incapacidades, pelo contrário, é o não-poder tudo que nos permite poder algo.

Não por acaso, desejo não equivale à vontade, ele pode ser comparado a uma sala de espera, pois precisamos nos propor a estar lá (no entre) para que as possibilidades se revelem. Todavia, mesmo após realizada uma das escolhas, não haverá garantias de satisfação e plenitude ou, sequer, de respostas, o que haverá são outras novas (talvez nem tão novas assim) possibilidades, ou seja, o percurso desejante não é o fim, mas a via de acesso a uma cadeia espiral e dinâmica de desejo. Em vista disso, ou seja, por uma questão de desejo, escolhemos por reconstruir nossos espaços de escuta, na mesma cidade, por razões singulares, mas convergentes, em alguns pontos.
Em virtude do desejo de se pôr a falar, através da escrita, sobre os caminhos que optamos, a pergunta sobre seu começo circula, sem ponto de partida ou ponto de chegada, tal como o percurso desejante do sujeito. Já diria Galeano (2015): “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Para que eu não deixe de caminhar”.
Cada uma, atravessada pelas suas histórias, seus sintomas, suas angústias, seus (des) encontros e com suas próprias questões deparam-se com esse estranhamento, tão familiar, que é se fazer desejante, cuja tarefa é tão peculiar.
Afinal, o que nos une, o acaso ou o desejo? Por que a psicanálise? Por que Cascavel?

Cheila Rotta Scheibel - Crp 08/16663
Izabele Zasso - Crp 08/24980
Juliane Ozelame Ribas Mohana - Crp 08/15864

REFERÊNCIAS:

GALEANO, Eduardo. Para que serve a utopia. Blog Conti Outra. Disponível em:< http://www. contioutra.com/para-que-serve-utopia-eduardo-galeano>. Acesso, v. 28, 2015.

Ser pai e ser mãe na ótica psicanalítica vai além da paternidade biológica, demanda principalmente sentimentos e atitudes de adoção que decorrem do desejo pelo filho que os tornam capazes de exercer cuidados físicos e principalmente psíquicos para com o bebê. Por isso se fala das funções materna e paterna (DOLTO, 1996).
Para Jerusalinsky (2012, p. 71) o bebê necessita de uma “presença real de um agente que o receba num espaço virtual (o lugar de sua falta), espaço no qual esse infans se espelha (se imaginariza).” E esse espaço só se cava no agente materno se existe nele uma referência ao simbólico. O que quer dizer, que é necessário que este agente esteja capturado pela castração simbólica, inscrito metaforicamente no Nome-do-Pai, pois só assim o filho é objeto de desejo, e só assim a mãe inscreve no corpo dele as marcas do simbólico, o que é pertinente à função da mãe.  
O que caracteriza a maternidade, segundo Jerusalinsky (2012) é a falta na mulher. Esse lugar vazio é simbolicamente preenchido pela criança, com a qual a mãe se imaginariza numa completude que se mostra simbolicamente insustentável, e por isso a criança também fica afetada pela falta. Esta é a dialética do desejo em que a criança se vê totalizada num outro que o espelha, o que contrasta com a imaturidade que, de seu próprio corpo, percebe. Então, para manter esse ideal de si mesma, a criança deseja o desejo da mãe.
Nesse desejar o desejo da mãe, o filho descobre nela a falta. A mãe por sua vez, restringida de seu gozo com ele, justamente por se faltante, se dirige ao Outro, que não é o filho, na esperança de resolvê-la. Essa falta na mãe, que a faz desejante, é feita pelo significante do Nome-do-Pai, por ser este o portador da lei da proibição do incesto. Diante de todo esse processo de Castração Simbólica é que a mãe cumpre sua função transmissora da falta (JERUSALINSKY, 2012).
Porém, Jerusalinsky (2012) afirma que o Nome-do-pai não se metaforiza quando essa falta se sutura, pois a lei perde o efeito e essa mãe não é desejante de um filho, mas de um rebento que a complete, porque imaginariamente, para ela a falta não é infalível. Isso quer dizer que o desejo materno, através da preclusão do Nome-do-Pai, dribla o Outro com seu desejo e, na imagem recíproca deste desejo, captura indissociavelmente o filho, revelando um fundo perverso da mãe-fálica.
Para Dor (1991) o papel materno é inconquistável, no sentido de ser instituído e sustentado pela diferença dos sexos aos olhos da criança, e a função paterna, por sua vez só é operatória simbolicamente por proceder diretamente dela. O que quer dizer, nas próprias palavras de Dor, “é a lei do falo que é determinante” (p. 58).
Diante disso, surgem questionamentos sobre como a função paterna poderia atuar frente à ausência de um pai. Pode se dizer que não é a ausência deste pai real, de carne e osso na concepção ou na vida da criança que pode impossibilitar essa função paterna, mas sim a ausência ou não referência do pai imaginário na mãe, que pensa poder impedir a circulação do Nome-do-Pai no seu desejo. Ou seja, “basta que ele o seja no discurso da mãe, de tal forma que a criança possa entender que o desejo da mãe se encontra, ele mesmo, referido a ele – ou, em caso extremo, que o tenha estado, ao menos durante certo tempo” (DOR, 1991, p.57).
Isso fica explícito na fala de Lacan (apud DOR, 2003, p.78):

O pai não é um objeto real, então o que é?(...) O pai é uma metáfora. O que é uma metáfora? (...) É um significante que vem no lugar de um outro significante (...) O pai é um significante que substitui um outro significante. E aí está o alcance, o único alcance essencial do paiao intervir no complexo de Édipo.


É através do simbólico que a paternidade começa a ser inscrita, certificada e, a partir desse momento, esse filho também é do pai, não apenas da mãe. Esse é o primeiro momento em que o pai faz sua marca, faz função. É por meio do Nome-do-Pai, que o pai poderá interditar a trama entre mãe e filho. E quando a criança se depara com esse interdito, sente-se castrada, procura assim seguir seu caminho, a obedecer ao que lhe foi mostrado, opera pela linguagem, transmitida pela metáfora paterna (DOR, 2003).
Por isso, Dor (1991) afirma a necessidade de que o significante Nome-do-Pai seja convocado pelo discurso materno para que, só assim, a função mediadora do pai simbólico seja estruturante. Todavia, caso a metáfora do Nome-do-Pai não estiver circunscrita ao discurso da mãe “[...] todo o processo da metáfora do Nome-do-Pai é comprometido, até mesmo fracassado” (p. 101).
Assim, se acontecer de nenhum outro significante substituir o significante do desejo da mãe, como o significante Nome-do-Pai, ocorrerá uma organização diferente da constituição psíquica da criança. Pode se falar em psicose quando há essa falha, pois a criança não tem a inscrição dessa Lei que o pai está fadado a realizar, e a realidade da criança, consequentemente, é comprometida. Sobre esse comprometimento, Dor (1991, p. 106) pontua que “permanecendo assujeitada a uma relação arcaica com a mãe, ela continua a se constituir como seu único objeto de desejo, isto é, como seu falo”.
Por isso, para Dor (2003) é por meio da metáfora paterna e de seu mecanismo fundamental, o recalque originário, que a criança efetuará uma substituição significante, colocando um novo no lugar do significante originário do desejo da mãe. À medida que o significante originário é substituído pelo novo, automaticamente ele é recalcado, passando para o inconsciente, o que permite de fato à criança efetivar a renúncia ao objeto inaugural de desejo, tornando inconsciente o que antes o significava.
Sendo assim, Dor (2003)considera a metáfora paterna como um processo inaugural da evolução psíquica da criança em diversos sentidos, pois inaugura seu acesso à dimensão simbólica, afastando a criança do assujeitamento imaginário à mãe, o que lhe confere o status de sujeito desejante.
    Lacan (1999) então, fala de três formas de falta de objeto articulando com as interdições do pai no real, no imaginário e no simbólico. A primeira consiste na operação de castração, que traz a intervenção real do pai contendo uma ameaça imaginária, pois pode-se duvidar que realmente o filho tenha o pênis cortado, comonos diz Lacan (1999, p. 178): “a castração é um ato simbólico cujo agente é alguém real, pai ou mãe, que lhe diz: ‘vamos mandar cortá-lo’ e cujo objeto é um objeto imaginário – se o menino se sente cortado é por imaginar isso” .
    Já na segunda forma de falta, a da frustração, Lacan (1999) afirma que “o pai como simbólico que intervém numa frustração, ato imaginário concernente a um objeto muito real, que é a mãe, na medida em que a criança necessita dela”. Nesse sentido, o pai tem direito à mãe, a criança percebe mesmo diante da ausência do pai o poder que esse exerce sobre a mãe.
    Por último, vem a privação, que advém por meio da identificação, em que o pai substitui a mãe no desejo do filho. A criança vai perceber que nem ela e nem a própria mãe tem o falo, restando-lhe a alternativa de se identificar com o pai.

Em outras palavras, no momento da saída normatizadora do Édipo, a criança reconhece não ter – não ter realmente aquilo que tem, no caso do menino, e aquilo que não tem no caso da menina. O que acontece no nível da identificação ideal, nível em que o pai se faz preferir à mãe e ponto de saída do Édipo, deve levar, literalmente, à privação (LACAN, 1999, p. 179).


Em síntese, Lacan (1999) coloca o Édipo como uma armadura significante mínima que permite a entrada do sujeito no mundo simbólico. Por ser simbólica, é possível operar a função paterna como uma metáfora; assim, o nome-do-pai entra em substituição ao falo como objeto de desejo da mãe. Produzindo o nome-do-pai, a criança nomeará, metaforicamente, o objeto fundamental de seu desejo, embora sem o saber, já que o significante originário foi recalcado. Mas esse processo é passível de falha na estrutura simbólica, e implica na foraclusão do nome-do-pai, acidente que ressoa sobre a estrutura imaginária, dissolvendo-a e conduzindo-a à estrutura elementar, o que provoca a desestruturação imaginária, paradigmática da psicose.


REFERÊNCIAS

DOLTO, F. No Jogo do Desejo: ensaios clínicos. 2 ed. São Paulo: Ática, 1996.

DOR, J. O Pai e sua Função em Psicanálise.2 ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991.

DOR, J. Introdução à Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Trad. Carlos Eduardo Reis. Porto Alegre: Artes Médicas, 2003.

JERUSALINSKY, A. N.  Psicanalise do Autismo. 2 ed. São Paulo: Instituto Langage, 2012.


LACAN, J. A Metáfora Paterna. In: O Seminário, Livro 5: as Formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999, p. 166-184.