17 Outubro 2017

A GERAÇÃO SEM MERTHIOLATE

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QUANDO A DOR NECESSÁRIA É IMPEDIDA, A FRAGILIDADE SE INSTALA

O tema que trazemos hoje para reflexão, prezado leitor, surgiu num dia de trabalho em uma empresa. Falávamos das dificuldades, na atualidade, das pessoas enfrentar o desconforto e exigências do mundo. Percebe-se que quando o esperado, no mundo pessoal ou do trabalho, não acontece, muitos se desestruturam, isto porque o tropeço não é visto como parte do processo de crescimento. Nos dias atuais é comum a busca de alívio imediato com o entendimento de que “a dor vai passar quando o remédio for aplicado”. Porém, mais do que livrar-se da dor é importante entendê-la, ela tem um significado no processo de amadurecimento, não a sentir é deixar de vivenciar o aprendizado.

Naquele dia de trabalho foi relembrado o “Merthiolate”. Que há gerações atrás, quando as crianças se machucavam, ralavam a pele, usava-se o “Merthiolate” sobre o ferimento, e ardia, como ardia... Na época, os pais colocavam o medicamento e sopravam para diminuir os efeitos ruins. As crianças as vezes fugiam ou choravam, pois sabiam que a dor do remédio era maior que a do próprio ferimento. Já os pais sabiam qual era o objetivo, sarar, e para isso teriam que deixar seus filhos passarem por aquela dor, talvez até maior. Pois bem, a indústria farmacêutica inventou uma medicação sem o efeito da ardência. De maneira metafórica, olhamos as atitudes dos pais na atualidade que impedem a ardência da vida de seus filhos, deixando tudo muito fácil e sem dor. Eles não percebem, no entanto, que desta forma também impedem seus filhos de lidar com coisas desagradáveis, uma vez que isto requer suportar o que muitas vezes não vem tão docemente quanto gostariam. Então que filhos estão criando para o mundo? Como estão preparando as gerações futuras para enfrentar crises econômicas, pressões no trabalho, problemas familiares, perdas físicas e emocionais? Sabemos que há “remédio” para qualquer dor, entretanto as vezes demora, ou não traz a resposta desejada. O “remédio” pode ser a análise do problema, a busca de outras possibilidades, uma dor momentânea para um equilíbrio posterior. E ainda, há momentos que precisamos contar com o auxílio de pessoas que nos são caras para que, como aqueles pais, soprem sobre nosso machucado diminuindo a ardência para encontrarmos um outro jeito de encarar o que aconteceu.
Receber a dor, o desconforto, o problema como uma oportunidade de fortalecer-se é necessário, visto que tornar-se forte para enfrentar as adversidades requer um aprendizado constante. Para que se aprenda encarar os problemas organizacionais, analisar, encontrar soluções, promovendo o crescimento, pode-se buscar o auxílio de algum membro da equipe de trabalho o qual se confia para pensar junto. No entanto, quando a dor vem de conteúdos emocionais de sua vida, o “sopro” precisa ser mais especializado, para que não “contamine” e traga outras dores. O Psicólogo clínico, com seus métodos e técnicas, administra o “Merthiolate”, bem como o sopro para que doa menos. Enxergar a si mesmo faz doer, mas também permite que a pessoa se fortaleça para os novos arranhões da vida, até porque não há como não nos machucarmos eventualmente.

Psicóloga - Terapeuta Familiar e de Casal
Noemi Paulina Cappellesso Finkler Noemi
CRP 08/03539

Psicóloga - Terapeuta Familiar e de Casal
Elisa Mara Ribeiro da Silva
CRP 08/03543