14 Agosto 2017

TINDER – A DINÂMICA DO QUERER

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Izabele Zasso 08/24980

Desde o surgimento do primeiro telefone até as mais avançadas tecnologias de comunicação ocorreram rearranjos das relações sociais até então conhecidas. Tais tecnologias possibilitam a interação entre os indivíduos, mesmo em continentes diferentes. A imagem da televisão, bem como a transmissão via internet, não conhecem a temporalidade (online e off-line), ultrapassam o tempo e, além disso, coexistem em vários lugares (LEVY,1996). Mais impressionante ainda, o surgimento das tecnologias 3D, que possibilitam adentrar com maior realidade no universo virtual. A influência da virtualidade na vida cotidiana é significativamente vívida e vem permeando cada vez mais as relações sociais que antes eram, na maioria das ocasiões, praticadas no âmbito presencial.
Um exemplo da modificação das formas de se relacionar, é o aplicativo Tinder. Ele é quase um radar perfeito, pois o usuário escolhe o gênero, a idade (acima de 18 anos) de interesse dos possíveis pretendentes que estejam a uma distância de até 160 quilômetros. Depois, avalia a sugestão dada pelo aplicativo e, com uma rápida análise das fotos e das poucas informações disponíveis, decide se gosta ou se não gosta da opção (pessoa). Além disso, o Tinder acaba também com a rejeição, pois somente usuários que gostaram um do outro que são permitidos manter contato entre si.
O uso crescente de redes sociais é uma marca característica da sociedade pós-moderna, que se caracteriza pela fluidez, instantaneidade e da necessidade do indivíduo de estar sempre conectado e em movimento. Os relacionamentos contemporâneos podem ser comparáveis a investimentos de mercado capitalista. Os que procuraram por amor, no Tinder, por exemplo, podem estar se colocando na vitrine ao mesmo tempo em que analisam os que estão na prateleira. A mesma lógica do mercado consumista de hoje. Segundo Bauman (2004) nos sentimos mais confortáveis em nos relacionarmos através da mediação desses dispositivos virtuais. Os meios digitais trazem três aspectos que o contato físico não pode garantir totalmente: segurança, controle e comodidade (BAUMAN, 2004). O contato face-a-face, ao ser comparado com o contato online por plataformas digitais, se torna algo completamente perigoso e imprevisível. Não podemos ter alguns segundos a mais antes de enviar uma resposta, assim como não podemos reler o que respondemos antes de enviar. O contato físico não permite erros.
Outra característica da sociedade pós-moderna é o individualismo. Isso se reproduz nas relações amorosas que são autocentradas e desinvestidas. Ainda, há um superinvestimento na aparência, no ter em detrimento do ser. Por isso, o aplicativo Tinder tem tantos adeptos, pois se baseia na aparência. No ter. Sou visto, logo existo. Mas é mais que isso, é uma necessidade de ser reconhecido pelo outro.
E, no fim, o que captura uma pessoa a outra pessoa, seja ela pelo computador ou não, são as fantasias que se colocam em cena. Fantasias são uma armadilha do olhar do sujeito, que se deixa fascinar, enganar, pois a considera como sua janela para o mundo, pois não se trata de uma realidade fatual, mas psíquica.
Por fim, não se trata de uma crítica a virtualidade ou de um apelo aos tempos “antigos”, mas sim, de novas configurações de laço.

REFERÊNCIAS:
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

LEVY, Pierre. O que é o virtual? Tradução: Paulo Neves. São Paulo: editora 34, 1996.

Última modificação em Segunda, 14 Agosto 2017 15:27