14 Agosto 2017

MENTIRAS SINCERAS LHE INTERESSAM?

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Izabele Zasso - CRP 08/24980

O mês de abril é reservado a mentira. Um dia específico em comemoração a esta data, dia 01 de abril. A intenção de ter um dia específico para esse ato se deu porque a mentira, nos tempos medievais era condenada socialmente. A mentira era punida e a verdade premiada.
Ao abordar sobre um tema pouco abordado, porém, necessário, partir-se-á de um recorte cultural, o cinema, para exemplificar o papel que a mentira ocupa em nossa sociedade de modo geral. São dois filmes que dão conta de problematizar as diferentes facetas da mentira.
O primeiro deles é o Pinocchio. Todo mundo conhece a história de Pinocchio, e de como seu nariz crescia a cada mentira ou inverdade que contava. Pinocchio é uma criança que não é “de verdade”, mas é um boneco com vida. Primeiro ponto que se deve pensar a respeito do filme: Porque as crianças mentem? E porque sua mentira precisa ser exposta (através do nariz)?
Mentira pode ser entendida, de acordo com a psicanálise, como mecanismo de defesa do ego. E, pode ser pensada como a forma que a criança constrói uma proteção na disputa contra o adulto, todo-poderoso, imponente, que o pequeno mentiroso vislumbre como arquétipo, mas que devido à sua fragilidade e às suas limitações, julgue jamais poder igualar-se. Nesse sentido, se vê inferiorizado e, através da mentira, pode tornar-se autônomo diante do adulto. Corso defende que “contar pequenas lorotas e ludibriar os adultos é um ato de independência, de perceber a limitação desses em controlá-lo” (CORSO & CORSO, 2006, p. 221).
Ainda, podemos pensar que os adultos também mentem para as crianças e apresentam a mentira na vida delas. Por exemplo, mentimos sobre sua origem através do exemplo da cegonha, e além da cegonha, nós lhe ofertamos o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, a fada do dente, os anjos e outras personagens, como a bruxa e o bicho papão. Isso tudo lhe preenche o imaginário – por algum tempo, porque depois nós confessamos a farsa. Tempo suficiente, porém, para ela inventar um mundo paralelo que lhe traga as devidas explicações sobre sua origem e sobre tudo mais que, ainda, não pode entender. Assim, a criança vai criando narrativas para contar sua história, ao mesmo tempo, vai comprovando ou não suas teorias.
A mentira também tem sua função pedagógica. Afinal, o mundo do faz-de-conta que concedemos à criança proporciona uma importante efervescência à sua imaginação, introduzindo o período de compreensão do abstrato. A cegonha facilita o processo cognitivo, porquanto lhe empresta uma identidade – ainda que provisória.
Outro filme elucidativo sobre a mentira é Peixe Grande e suas histórias maravilhosas. O personagem principal, próximo de ser pai pela primeira vez, recebe uma ligação que o informa de que seu pai está morrendo. Ele possui uma mágoa de seu pai, pois acredita que este conta apenas “lorotas” no relato de suas aventuras pela vida, bem como sobre a origem de seu único filho (CORSO & CORSO, 2011). Suas “mentiras” fazem refletir, afinal Mario Quintana afirma: “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer” ou seja, ela é inverdade quanto ao fato, mas é verdadeira quanto ao desejo que venha expressar.

REFERÊNCIAS

CORSO, Diana L. CORSO, Mário. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Penso, 2006.

CORSO, Diana L. CORSO, Mário. A psicanálise da terra do nunca: ensaios sobre a fantasia. Porto Alegre: Penso, 2011.