26 Junho 2015

O CONSUMISMO E OS RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS

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O consumo é a atividade econômica que pressupõe uso da racionalidade em sua prática e se ocupa da aquisição de bens, que podem ser de consumo, de capital e de serviços. O consumo é inerente à sociedade, no entanto o que preocupa hoje é o consumismo, ato caracterizado pela compra compulsiva sem que o sujeito esteja precisamente consciente dessa necessidade. Um consumidor consciente compra de forma racional e por necessidade, já o consumista compra para satisfazer sua angústia, itens sem necessidade, por impulso, sem racionalizar sua necessidade real, e o faz na busca pelo prazer instantâneo.
A partir do século XVIII o modo de viver das pessoas sofreu uma significativa mudança com o processo de industrialização. Os bens de consumo acabaram por se tornar mais baratos, assim, muitas pessoas puderam usufruir de bens de lazer e de bem estar antes utilizados apenas pelas classes mais abastadas da sociedade. Houve um “boom” no consumo, o que dá surgimento a um fenômeno denominado de “hiperconsumismo”, esse processo pode ter culminado para a emancipação do indivíduo frente às imposições morais da sociedade, o que leva  à liberação sexual, à ruptura com obrigações morais, à ausência de ideologia num estilo de vida “à la carte”.
O século XIX foi marcado pela necessidade de descartar que era "sólido" (inflexível, limitado, pré-determinado), substituir pelo "desejo" (ilimitado, expansível, desenfreado). A prática de consumismo foi iniciada a partir de 1930, esse período é considerado como a “era do vazio” por conta desta descontração observada na educação, nos papéis sexuais e na vida política. A busca pelo prazer como objeto de vida ou hedonismo traz aos sujeitos decepção constante, uma vez que precisa ser buscado novamente para satisfazê-los, tornando-se assim um ciclo que não cessa entre prazer instantâneo, superficial, a decepção e, novamente, a busca pelo prazer. No século XXI seria a vez de descartar o desejo e substituí-lo pelo querer. É a libertação do princípio do prazer, trazendo o imediatismo, faz com que a compra passe a ser casual espontânea, inesperada e incessante.
O consumismo pode ser relacionado a um vício; esta compulsão por compras é semelhante ao uso de drogas pelo fato de que quanto mais a pessoa procura mais ela precisa, se mais ela precisa mais ela sofre quando privada do seu vício, e mais ela busca satisfazer sua necessidade formando um ciclo vicioso, e como todos os vícios existe a impossibilidade de atingir a satisfação plena e duradoura, ela é sempre passageira.
Porém, como se dá este processo? Os adultos que hoje praticam o consumo e descarte incessante, já nasceram na lógica do consumismo. Desde crianças foram ensinados a consumir pelos pais, pelos colegas da escola e principalmente pelos meios de comunicação. Imaturas e sem capacidade de escolha, as crianças assistem às propagandas elaboradas cuidadosamente por profissionais para sugestioná-las, em seguida pedem aos pais que comprem o objeto e, ao adquiri-lo, logo sentem necessidade de outro.
Se o ato desenfreado do consumismo for comparado a outro fenômeno da atualidade, que é o da dificuldade das pessoas em estabelecer relações interpessoais profundas e duradouras, podem-se perceber similaridades. Os seres humanos escolhem pessoas para suas relações como quem vai às compras, ao adquirir um novo objeto ele é usado, tira-se dele satisfação e conforto, logo descartado e adquirido outro. Existe uma busca por evitar dependência das relações e uma valorização do eu, possivelmente desvalorizando o que não for ligado a este.
As pessoas "vão às compras" também quando querem fazer novos amigos e de se desfazer dos que não mais interessam; pelos modos de atrair atenção e de se esconder da crítica; pelos meios de receber afeto e pelos meios de evitar a dependência do parceiro amado; pelos modos de obter amor e o modo de acabar com uma relação quando ela deixar de agradar; pelo meio de poupar dinheiro e o modo mais conveniente de gastá-lo antes mesmo de tê-lo adquirido.
Como contornar esse processo? Não é fácil. Há quem necessite de ajuda profissional. De uma maneira geral é preciso que as pessoas tornem-se conscientes sobre o assunto, procurem se interessar pelo outro de modo a não valorizar apenas a si mesmo, revendo seus conceitos e valores, de modo a não ser influenciado pelo processo do consumismo, procurando perceber as ações da mídia e sendo capazes de desenvolver a capacidade crítica.


Paula Brenneisen - Psicóloga Clínica – CRP 08/21179
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