25 Fevereiro 2015

A constituição da identidade homossexual.

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A constituição da identidade homossexual é enfatizada, principalmente, pela presença de pressão social sobre os sujeitos, o que pode causar resistência da escolha sexual pela problemática sobre aquilo que é socialmente aceito. Para compreender melhor como se constitui a identidade homossexual se faz importante destacar conceitos como estigma, rotulação, desenvolvimento da identidade estigmatizada, e perspectivas relacionadas à constituição da identidade na vida adulta. A partir dessas preocupações e conceitos se elaboraram formulações que podem explicar o processo por meio do qual se alcança uma existência como homossexual.

Um modelo interacionista propõe que o sujeito deve passar por quatro estágios, são eles: sensibilização, significação e desorientação, revelação e sub-culturalização e, por final, a estabilização. Relaciona-se à concepção da identidade homossexual como uma trajetória de vida envolvendo a adoção de uma autodefinição como homossexual, o aprendizado dos papéis correspondentes e a decisão de viver uma vida adulta a essa maneira.

Nesse modelo, cada estágio está associado a uma etapa da vida, o estágio de sensibilização corresponderia a determinadas experiências vividas na infância, pelos meninos, que dizem respeito a interesses, emoções e atividades (eróticas e genitais inclusive, mas não só) consideradas inadequadas às expectativas de seus respectivos papéis de gênero.

O estágio de significação e desorientação está relacionado à adolescência, nessa fase os interesses e sentimentos para com outros homens passariam a ser acentuados na consciência, dessa maneira é comum gerar sentimentos de ansiedade e confusão. Nesse período o sujeito pode vir a ter sentimentos também de marginalidade associados a se perceber diferente dos outros do ponto de vista do gênero. A adolescência se constitui de um período de conscientização do estigma, mas ainda sem o conhecimento do que significa de fato ser homossexual.

O estágio de revelação chamado depois de sub-culturalização ocorre na metade ou no final da adolescência, quando os homens começam hipoteticamente a estabelecer contatos com outros homens que se autodefinem como homossexuais. Dessa maneira os papéis podem ser aprendidos e os sujeitos podem se definir a esse modo. Por fim o quarto estágio corresponderia à maturidade, em que o sujeito finalmente constitui a identidade homossexual. Os sentimentos relativos a essa fase são, geralmente, de tranquilidade, aceitação, conforto com a própria homossexualidade de modo a se comprometer com ela como um modo de vida.

Esses modelos de estágios acompanhavam uma tradição interacionista em que identidades pessoais não são vistas como fundadas nas personalidades, mas como processos teoricamente abertos, que se desenvolvem no curso de experiências singulares. A perspectiva interacionista está relacionada à interação indivíduo-sociedade, que constrói a problemática da identidade como o relacionamento entre duas entidades distintas, destacando os constrangimentos relacionados a padronizações socioculturais. Assim, os modelos de estágio acabavam por impor uma ordem abstrata e artificial às histórias de vida, tendendo a retificar e simplificar transições que podem ser muito mais complexas e ocorrer em diferentes fases da vida.

Nessa linha, a identidade homossexual é desenvolvida desde a infância, com a consciência de desejos associados a rapazes e homens, que se consolida na adolescência, por meio de atividades homossexuais. A realização crescente dos desejos homossexuais é acompanhada por manifestações de intolerância da sociedade envolvente, através das condenações, recriminações, e chacotas da parte dos colegas e companheiros de escola, que provocam sentimentos de vergonha e autocrítica. Esses sentimentos de vergonha e perturbação, por sua vez, vêm a ser minimizados à medida que o "universo homossexual" é descoberto e se intensificam os contactos com outros que compartilham identidade sexual semelhante. Segue-se, então, a luta para assumir-se diante da família e dos amigos de fora da comunidade gay, à busca por relações afetivas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:

PLUMMER, K. Sexual stigma: an interactionist account. Londres: Routledge, 1975.

SIMOES, J.A. Homossexualidade masculina e curso da vida: pensando idades e identidades sexuais. Departamento de Antropologia USP, Campinas [s.n.], 2003.

Paula Carolina Cardoso Brenneisen

Psicóloga – CRP- 08/21179

Última modificação em Sexta, 26 Junho 2015 16:41